terça-feira, 10 de março de 2009

Vamos conhecer - Vergílio Ferreira

Vê se não insistes muito em perguntar porquê ou para quê, se não queres ficar paralítico. Porque a maior grandeza da vida tem o valor nela própria e não fora dela. Não se pode justificar a vida senão nela. Ou a luz. Ou a fraternidade humana. Ou a justiça. E o mais assim. E é o que é indiscutível que pode fundar um comportamento e uma razão de se estar vivo.
É fácil ainda inventar ou ter razões para se atentar contra o que é indiscutível. Porque se é indiscutível, não se pode discutir. E se se discute, o valor deixa de existir. Toda a cultura ou civilização assenta em pressupostos que não exigem uma demonstração e permanecem assim no intocável que é seu. Eis que no nosso tempo, como em nenhum outro, o fundamental para a vida se determina pela negação. A arte foi como sempre o grande arauto da nossa terra queimada. Negar. Destruir. Porque tudo se contamina da possibilidade de negação. Das artes e as letras ao comportamento social.
E curiosamente a mais manifesta negação é a que se refere ao tabu sexual. E o que mais se destaca aí é o uso a frio das maiores obscenidades. E o que mais se evidencia nisso é a redução do acto amoroso ao que nele é animal. Tudo o que se refere à nossa animalidade tem um duplo vocabulário segundo exprime aí elevação e baixeza. Utilizar friamente a obscenidade é reduzir o mais alto ao mais baixo, para que o bode o cão ou o cavalo afirmem a sua razão de ser contra a razão de ser humano. O nosso tempo exige não ter tabus. É a forma de exigir que se seja cavalo ou bode.

Vergílio Ferreira, in "Escrever"

O ato poético - Eugénio de Andrade

O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo do conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças do que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência.

Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'

Escreve e não perguntes - Vergílio Ferreira

Senta-te diante da folha de papel e escreve. Escrever o quê? Não perguntes. Os crentes têm as suas horas de orar, mesmo não estando inclinados para isso. Concentram-se, fazem um esforço de contensão beata e lá conseguem. Esperam a graça e às vezes ela vem. Escrever é orar sem um deus para a oração. Porque o poder da divindade não passa apenas pela crença e é aí apenas uma modalidade de a fazer existir. Ela existe para os que não crêem, como expressão do sagrado sem divindade que a preencha. Como é que outros escrevem em agnosticismo da sensibilidade? Decerto eles o fazem sendo crentes como os crentes pelo acto extremo de o manifestarem. Eles captarão assim o poder da transfiguração e do incognoscível na execução fria do acto em que isso deveria ser. Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante.

Vergílio Ferreira, in "Pensar"

Trazendo pra si - Vergílio Ferreira

Justamente porque a literatura se funda genericamente na ideia, ela é a mais ameaçada das formas de arte, para lá do que sabemos da sua aparente maior duração. Ou portanto a mais equívoca. Ou a mais mortal. Porque nas outras artes, a ideia é a nossa tradução do seu silêncio, o modo de uma emoção ser dita ou seja transaccionável, um modo irresistível de explicar, uma forma afinal de dominarmos o que nos domina, porque nomear é reduzir ao nosso poder aquilo que se nomeia. Mas a forma de arte não discursiva permanece intacta ao nosso nomear. A literatura, porém, é nesse nomear que começa. Na relação da emoção com a palavra que a diz, o seu movimento é inverso do que acontece com a música ou a pintura. A emoção de um quadro resolve-se numa palavra terminal. Mas a literatura parte-se dessa palavra para se chegar á emoção. Assim pois a «ideia» é o seu elemento nuclear, ainda que uma associação imprevisível de palavras a disfarce.

Vergílio Ferreira, in 'Arte Tempo'

Os intrigantes itens - Ana Hatherly

Os tentáculos da escrita. A escrita é um polvo, um molusco versátil. Tem infinitos recursos. Escapa sempre. Abstractiza-se. Disfarça-se, adensa-se, adelgaça-se, esconde-se. Impele-se rápida. Compreende tudo: ascese, consolo íntimo, entrega; fluxos, refluxos, invasões, esvaziamentos, obstinação feroz. O seu rigor é místico. É uma infinita demanda. Perscruta o inaudito. Sideral Alice atravessa todas as portas, todos os espelhos. Cruza, descobre, inventa universos. A escrita é um fragmento do espanto, já alguém o disse.

Ana Hatherly, in 'Tisanas'

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

11 de fevereiro de 2009


O que pretendo mostrar nessa edição é a diferença entre a realidade que pretendemos, e a realidade como está - sobre o saber. Nossa pretensão sobre a realidade não tem nada que ver com a realidade em si, e por pensar assim trago textos como o de Robert Musil que nos diz muito claramente sobre como é intocável essa parcela do mundo comum, e como nós estamos a ser seguidos por essa 'verdade' - que é antes um saber. Nem sequer conseguimos nos distrair de paixões em um sentido geral. Para esse problema temos o saber não mais como algo indeterminadamente real, que atravesse todos os paradigmas, e por isso estaria pronto para mostrar outros mais. Temos o saber aqui como uma ferramenta a mais, a ser administrada, sem a qual somos menos, e com o uso indevido da mesma somos igualmente menos. Montaigne está a explicar essa parte da questão. Mas isso nos leva a questionamentos sobre nossa liberdade de se saber, e como se pode saber, e ser assim, mesmo ignóbil. Percebemos o saber como algo a diferenciar castas, a determinar cargos, a definir grupos, e buscamos incessantemente obtê-lo para ter o controle sobre essa forma de se dar com a vida. E se voltamos ao primeiro trecho dessa reflexão, vemos que tem algo que não podemos de forma alguma dominar com essas duas mãos que temos. Porém, com Vergílio Ferreira podemos tomar noção dessa nossa condição, de humanos, onde estamos a escolher e descobrir nossas escolhas. Como o descobrir sobre a realidade seria antes um descobrir sobre nós mesmos!

Após afirmar e reafirmar, talvez o mesmo, e talvez outra coisa (o que uma boa releitura, para os dispostos e benfeitores do entendimento, faria esclarecer) trago a afirmação final do saber, que é em seu fundamento, de utilidade limitada, talvez por sermos nós próprios limitados também. Sendo então importante algo que se diz entre samurais: "o estudo da espada segue o estudo das letras" - ambos devem caminhar juntos. O saber não tem valor isolado em lugar nenhum!


Sávio

O comportamento - Robert Musil


O saber é uma forma de comportamento, uma paixão. No fundo, um comportamento ilícito; porque, tal como a dependência do álcool, de sexo ou da violência, também a compulsão de saber molda um carácter em desequilíbrio. É um erro pensar que o investigador persegue a verdade; de facto, é ela que o persegue a ele. É ele que tem de suportá-la. A verdade é verdadeira, o facto é real, sem se preocuparem com ele: ele é que sofre da paixão, da dipsomania dos factos que define o seu carácter, e está-se nas tintas para saber se as suas descobertas levarão a alguma coisa de total, humano, perfeito ou o que quer que seja. É uma natureza contraditória, sofredora e, ao mesmo tempo, incrivelmente enérgica.

Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'

Intermitências - Michel de Montaigne


Amo e honro o saber, tanto como aqueles que o têm; dando-se-lhe o verdadeiro uso, é a mais nobre e poderosa aquisição dos homens. Mas aqueles, e são em número infinito, que nele alicerçam o seu valor e a sua fundamental capacidade, que abdicam da inteligência na memória, acolhidos à sombra alheia, e nada podem senão pelos livros - nesses aborreço-o eu, se ouso dizê-lo, um pouco mais do que a estupidez. Na minha terra e no meu tempo, a sabedoria melhora bastante as bolsas, raramente os espíritos. Se os encontra obtusos, pesa sobre eles e sufoca-os com a sua massa informe e indigesta; se lestos, logo os purifica, clarifica e subtiliza até o esgotamento. É coisa de qualidade quase indecisa; instrumento muito útil às almas bem formadas, pernicioso e daninho às outras; ou antes, coisa de preciosíssima utilidade que se não obtém barata; em certas mãos é um ceptro, noutras uma folia.

Michel de Montaigne, in 'Da Arte de Discutir'