terça-feira, 6 de abril de 2010

Jardim Secreto - Arthur Schintzler


Se protegerdes com demasiada devoção o jardim secreto da tua alma, ele pode facilmente começar a florescer de um modo excessivamente luxuriante, transbordar para além do espaço que lhe estava reservado e tomar mesmo pouco a pouco posse da tua alma de domínios que não estavam destinados a permanecer secretos. E é possível que toda a tua alma acabe por se tornar um jardim bem fechado, e que no meio de todas as suas flores e dos seus perfumes ela sucumba à sua solidão.

Arthur Schnitzler, in 'Relações e Solidão'

segunda-feira, 15 de março de 2010

15 de março de 2010 - da poesia (talvez mais crítica)


Existe quem seja contra a argumentação dos que estudam. Quem escreve mal e é inseguro tem medo dos críticos, não importa a área, porque não saberão se defender. Tem algumas pessoas que acham que o conhecimento é delas, e tem aquelas que admitem o conhecimento num texto de outro, e vai estudá-lo, admirado. A esse segundo caso chamo de 'críticos', ao primeiro 'críticos de araque'. O crítico de araque não sabe, mas ele também critica a posição de crítico, apesar de ser um, e sua ignorância se ambienta exatamente no fato de ignorarem sua própria posição; não são os únicos, mas eles, que lêem a crítica dos outros, e não gostam de assumir que um texto possa falar mal de algo que talvez ele goste (como o deles mesmo faz com outros), sai por aí dizendo bobagens a respeito de uma profissão (generalização: erro que eu mesmo cometo várias vezes e por isso mesmo me sinto a vontade de apontá-lo como erro, e se eu cometer novamente aqui mesmo por favor me apontem!) que enfrenta problemas gigantescos em seu próprio seio no Brasil pela descrença na cultura que é senso comum já, e que este exemplar de gente ajudam a piorar. Pessoas como Roland Barthes que estudam e que dizem coisas maravilhosas em seus estudos, como está na citação seguinte, são afastados das pessoas porque existem esses que não sabem calar-se para o fenômeno, falam para os próprios ouvidos talvez, porque estão desacostumados ao aprendizado vir de fora pra dentro, acham que sabem o suficiente, desobedecendo mais uma vez o velho ditado: 'não se pode acrescentar a um copo que já está cheio'.

Pessoas como Márcio Ezequiel (o twitter dele: http://twitter.com/marcioezequiel , o blog dele onde ele falou besteira: http://marcioezequiel.blogspot.com/) são exemplares dos anti-cultura que infestam o país, e pra completar, quando postei um comentário em seu blog onde acusei-o de blasfêmia descobri que os comentários postos lá tem de passar por sua aprovação e ele se sentiu no direito de negar o comentário que se opôs a ele, um ato de censura claro onde ele quer controlar a opinião das pessoas que frequentarem seu ambiente, não permitindo que vejam opiniões avessas às dele. Assim são os políticos que negam educação ao povo, estão outros que ameaçam mídias caso publiquem notícias que prejudiquem suas imagens, e assim vai... Esse exemplar da escória (essa é a opinião que sustento enquanto ele não responder, e talvez dure pra sempre...) me intrigou, porque eu precisava mesmo de ver um exemplo de burrice pra poder apontar o dedo e dizer que ele é um dos responsáveis pelo atraso do país!

Mudando radicalmente agora, voltando ao assunto que interessa ao blog, a arte literária é do povo, e merece sua atenção, os críticos somos nós todos, e quem escreve, só por escrever, está ousando interferir na história da escrita; se supera, difama, se falha, anuncia outros... Quem é separado neste mundo?(talvez o Márcio Ezequiel) Estamos interligados até porque um prato de comida que se come é um prato de comida a menos para todos! É por isso que o desperdício fere. É um ato de respeito para a condição humana fazer considerações abertas sobre a posição de outras pessoas ou sobre suas obras, quem nega isso nega também melhoras para a humanidade uma vez que acha que nada se acrescenta, e que todos devem viver separados em seus próprios mundos (talvez um resultado do consumismo que insere as pessoas cada vez mais em perspectivas alucinadas de isolamento e ignorância; pra defender essa minha posição aponto um bom filme que trata o caso: SURPLUS). Nós compartilhamos as experiências, e é por isso, e por nada mais, que tudo que é arte tem importância, e é tão fantástico isso que na seguinte citação está uma análise do que compõe a poesia.

Da palavra poética - Roland Barthes


"Cada palavra poética é assim um objeto inesperado, uma caixa de Pandora de onde saem voando todas as virtualidades da linguagem; é portanto produzida e consumida com uma curiosidade particular, uma espécie de gulodisse sagrada. Essa Fome da Palavra, comum a toda a poesia moderna, faz da palavra poética uma palavra terrível e desumana. Institui um discurso cheio de buracos e cheio de luzes, cheio de ausências e de signos supernutritivos sem previsão nem permanência de intenção e por isso mesmo tão oposto à função social da linguagem, que o simples recurso a uma palavra descontínua abre a via de todas as sobrenaturezas."

Roland Barthes in 'O grau zero da escrita' (p.43-44, 2004)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

7 de fevereiro de 2010 - da inteligência


Acostumados a enxergar valor antes em algo como esforço responsável que em posições favoráveis, nos esquecemos da estrutura. A habilidade das cabeças boas, como Robert Musil parece ter dito, estarão mais preparadas que qualquer atitude provinda de grande velocidade ou energia.

Da colaboração íntima - Robert Musil


...a solução de uma tarefa intelectual não acontece de modo muito diferente do que quando um cão, levando um bastão na boca, quer passar por uma porta estreita; ele vira a cabeça para a esquerda e a direita, até o bastão entrar, e nós agimos de modo muito parecido, apenas com a diferença de que não tentamos fazer isso de modo inconsciente, mas, pela experiência, já sabemos mais ou menos como proceder. E embora uma cabeça inteligente tenha muito mais habilidade e experiência nos movimentos do que uma cabeça tola, a solução também para ela chega de forma inesperada, acontece de repente, e sentimos com vago espanto que os pensamentos se fizeram por si, em vez de esperarem pelo seu autor. Essa sensação de assombro é o que muita gente chama hoje em dia de intuição, depois de antigamente a chamarem de inspiração, e acreditam dever enxergar nela algo de suprapessoal; mas é apenas algo impessoal, isto é, a afinidade e solidariedade das próprias coisas que se encontram dentro de uma cabeça.

(Robert Musil, in O homem sem qualidades, p.82, 1942)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

20 de janeiro de 2010 - Do destino


Sartre dissera outrora que somos responsáveis pelo mundo, pela humanidade, que é escolhendo-se que se escolhe os outros. Quem procura conselhos, procura os conselhos que pretende, e não qualquer conselho. Estamos preparados para o que vem, ainda que nos surpreendamos, isso deixa margem para o pensar, do fato de que as idéias não são nunca inesperadas, daí a criatividade recai sobre nós como um esforço repetitivo de escrita e reescrita através do qual se forja algo novo, e almejado. Observe como é simples e bem colocada essa outra forma de tratar o destino...

Do destino causado - Sándor Márai


Não só as coisas acontecem com as pessoas, (...) cada um gera também aquilo que acontece consigo. Gera-o, invoca-o, não deixa de escapar àquilo que tem de acontecer. O homem é assim. Fá-lo, mesmo que saiba e sinta logo, desde o primeiro momento, que tudo o que faz é fatal. O homem e o seu destino seguram-se um ao outro, evocam-se e criam-se mutuamente. Não é verdade que o destino entre cego na nossa vida, não. O destino entra pela porta que nós mesmo abrimos, convidando-o a passar. Não há nenhum ser humano que seja bastante forte e inteligente para desviar com palavras ou com acções o destino fatal que advém, segundo leis irrevogáveis, da sua natureza, do seu carácter.

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'

domingo, 13 de dezembro de 2009

13 de dezembro de 2009 - Da vaidade


Agir para um indivíduo é saber da única forma que tem para tal, inquestionável. E agir mesmo é cheio de engasgos. A saliva precipita e se cospe nas palavras improvisadas. Agir mesmo é não haver o que o contenha; quem age eleva-se no patamar da própria força, segura firme na atitude, e se não o faz, já errou.