O medo não é uma perturbação psicológica. Ele é parte de nossa própria alma. O que é decisivo é se o medo nos faz rastejar ou se ele nos faz voar. Quem, por causa do medo, se encolhe e rasteja, vive a morte na própria vida. Quem, a despeito do medo, toma o risco e voa, triunfa sobre a morte. Morrerá, quando a morte vier. Mas só quando ela vier.
Arreda a si mesmo para o canto, ignorando as vontades súbitas que tentam agir antes do aval, e são nocivas por isso. Atitude que não nega só a conquista porque agride antes e depois do afago, mas a paz que se busca quando se tem. É o princípio do nosso contraditório, a dor que se sente porque aprendeu, porém inevitável. A loucura incontornável, faz maior do que é a noção do respeito, colocando-o como noção de lei, e dando-lhe novos membros, estes inventados. Trata-se de um ensaio do ciúme.
Os meus passos são seguidos por algo. Eu olha atrás e nada além da minha sombra. Deitado então em minha cama ainda um pensamento me acorda repetidas vezes antes de me despertar de fato, ele foge tão logo posso assimilá-lo, mas eu sei do que se trata...
Existe algo que é indizível, mas eu sei pra onde aponta. Não me assusta, não se trata de um medo, nem de crenças cegas. É um direito de se darem os acontecimentos. A realidade vem humorada de algo e nos saúda a seu modo!
Qualquer género de fervor acarreta consigo a tendência para sentir uma lei preestabelecida na vida, uma lei que castiga os que abusam ou descuram esse mesmo fervor. Um estado de paixão - mesmo que fosse a embriaguez da absoluta autodeterminação - organiza e anima de tal forma o Universo que toda a desgraça, parece, depois, provocada por uma ruptura do equilíbrio vital dessa paixão difusa, que, assim, se defende como um corpo vivo. E, segundo o temperamento de cada um, teremos a sensação de que abusámos, ou de que fomos inferiores; de qualquer forma, sentir-nos-emos organicamente punidos pela própria lei da paixão e do Universo. O que quer dizer que todo o fervor acarreta consigo a convicção supersticiosa de ter de prestar contas à própria lógica das coisas. Mesmo o fervor de um ateu pela transcendência de uma lei.
Vigorar parece tornar-se infinito em cada experiência. Antes como ausentar-se da morte, agora como administrar sua presença, para que o fim, não seja, exatamente, fim. Assim desenvolve adiante Musil em sua clara consideração.
A morte é apenas uma consequência da nossa maneira de viver. Vivemos de pensamento em pensamento, de sensação em sensação. Os nossos pensamentos e as nossas sensações não correm tranquilamente como um rio, «ocorrem-nos», caem em nós como pedras. Se te observares bem, sentirás que a alma não é algo que vai mudando de cor em gradações progressivas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos saindo de um buraco negro. Neste momento tens um pensamento ou uma sensação, e no seguinte aparece outro, diferente, como que saído do nada. Se deres atenção, até podes sentir o instante entre dois pensamentos, quando tudo se torna negro. Esse instante, uma vez apreendido, é para nós o mesmo que a morte.