Sartre dissera outrora que somos responsáveis pelo mundo, pela humanidade, que é escolhendo-se que se escolhe os outros. Quem procura conselhos, procura os conselhos que pretende, e não qualquer conselho. Estamos preparados para o que vem, ainda que nos surpreendamos, isso deixa margem para o pensar, do fato de que as idéias não são nunca inesperadas, daí a criatividade recai sobre nós como um esforço repetitivo de escrita e reescrita através do qual se forja algo novo, e almejado. Observe como é simples e bem colocada essa outra forma de tratar o destino...
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
20 de janeiro de 2010 - Do destino
Sartre dissera outrora que somos responsáveis pelo mundo, pela humanidade, que é escolhendo-se que se escolhe os outros. Quem procura conselhos, procura os conselhos que pretende, e não qualquer conselho. Estamos preparados para o que vem, ainda que nos surpreendamos, isso deixa margem para o pensar, do fato de que as idéias não são nunca inesperadas, daí a criatividade recai sobre nós como um esforço repetitivo de escrita e reescrita através do qual se forja algo novo, e almejado. Observe como é simples e bem colocada essa outra forma de tratar o destino...
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Do destino causado - Sándor Márai
Não só as coisas acontecem com as pessoas, (...) cada um gera também aquilo que acontece consigo. Gera-o, invoca-o, não deixa de escapar àquilo que tem de acontecer. O homem é assim. Fá-lo, mesmo que saiba e sinta logo, desde o primeiro momento, que tudo o que faz é fatal. O homem e o seu destino seguram-se um ao outro, evocam-se e criam-se mutuamente. Não é verdade que o destino entre cego na nossa vida, não. O destino entra pela porta que nós mesmo abrimos, convidando-o a passar. Não há nenhum ser humano que seja bastante forte e inteligente para desviar com palavras ou com acções o destino fatal que advém, segundo leis irrevogáveis, da sua natureza, do seu carácter.
Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'
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domingo, 13 de dezembro de 2009
13 de dezembro de 2009 - Da vaidade
Agir para um indivíduo é saber da única forma que tem para tal, inquestionável. E agir mesmo é cheio de engasgos. A saliva precipita e se cospe nas palavras improvisadas. Agir mesmo é não haver o que o contenha; quem age eleva-se no patamar da própria força, segura firme na atitude, e se não o faz, já errou.
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Do calor da vaidade - Nicolas Malebranche
Os homens não estão cientes do calor que emana do seu coração, embora ele dê vida e movimento a todas as outras partes do seu corpo. (...) O mesmo se dá com a vaidade: ela é tão natural para o homem que ele não a percebe. E, embora seja isso que dê, por assim dizer, vida e movimento à maioria dos seus pensamentos e desígnios, isso ocorre de um modo que é imperceptível para o sujeito. (...) Os homens não percebem suficientemente que é a vaidade que dá ímpeto à maioria de suas acções.
Nicolas Malebranche, in 'Procura da Verdade'
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sábado, 21 de novembro de 2009
22 de novembro de 2009 - Do possuir
Fui consumido pela lucidez da tua cachaça!
Sávio
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Contra o possuir - Kafka
Não existe nenhum possuir, somente um ser, somente um ser exigente até o último alento, até à asfixia.
Franz Kafka
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domingo, 15 de novembro de 2009
15 de novembro de 2009 - Sobre princípios (revisitado)
Ao coração a honra, o peito aberto, despoluído das complicações que vêm da culpa, da piedade desnecessária, da vergonha. Inimigos vorazes que sem que se veja transformam tudo em coisa desfigurada, e desgastam os sentimentos, aos poucos a vida. É lutando contra os moinhos que Dom Quixote antes de olhar a lama viu a glória, que sem dar-lhe sujeira corrosiva, deu-lhe a sujeira provinda do empenho.
Cyrano nos ajuda nessa compreensão a seguir...
Sávio
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Levado pelo coração - Edmond Rostand
“LE BRET: Fique sozinho se quiser! Mas sem brigar com todo mundo! Como diabos você concebeu essa idéia maluca de fazer inimigos a cada momento?
CYRANO: Foi vendo como você faz os seus amigos - e como os trata com afetação, sorrindo de orelha a orelha! Eu passo alegremente, embora sem saudações, e grito - Quê! Outro inimigo?
LE BRET: Loucura!
CYRANO: Bem, que fazer se é meu vício? O que me agrada é desagradar - odeio amar os homens! Ah, meu amigo, acredite em mim, eu marcho melhor em meio ao fogo - cruzado dos olhares inimigos! Que graça existe nas roupas apertadas, no amargor da inveja ou nas besteiras de um poltrão? - a enervante amizade que o envolve é como um colarinho italiano largo flutuando ao redor de seu pescoço, como fazem as mulheres; pode - se levar bem a vida assim, mas será menos orgulhosa a carruagem! A testa, livre de dependência ou coerção, franze aqui, ali, em toda parte. Mas eu, abraçando o ódio que ela empresta - proibindo com rigor as rugas, a dureza da gola é que mantém a cabeça rígida; cada inimigo - uma ruga, uma dobra, que adiciona constrangimento e um raio de glória; pois o ódio, como a gola espanhola, prende como um vício, mas empresta
a cada um uma auréola!
LE BRET: Oh! Deixe de lado aquele orgulho de mosqueteiro, de que Fortuna e Glória o esperam!...
CYRANO: Sim, que mais?... Procurar um protetor, encontrar um patrono e, como a rasteira hera, que se agarra à casca da árvore para apoiar - se no tronco, chegar ao topo ficando de joelhos ao invés de usar a força? Não, muito obrigado! Ora! Eu, como todo o resto, dedicar versos aos banqueiros? - bancar o palhaço na balconista esperança de ver, finalmente, um sorriso que não seja de desaprovação nos lábios do benfeitor? Não, muito obrigado! Ora! Aprender a engolir sapos? - Com o esqueleto cansado subir escadas? - Ter uma pele suja e áspera, - aqui, sobre os joelhos? E, como um acrobata, ensinar minhas costas a se curvarem? - Não, muito obrigado! Ou, - cínico e dissimulado - andar com as lebres e caçar com os sabujos; e, língua untada de azeite, para obter o óleo do elogio, louvar o grande homem pelo seu grande nariz? Não, obrigado! Infiltrar-se lentamente em cada dobra - um pequeno grande homem num diminuto círculo de amizades, ou navegar, tendo madrigais por vela, sopradas à barlavento pelos suspiros de velhas damas? Não, muito obrigado! Subornar adoráveis editores para disseminar meus versos fora do país? Muito Obrigado! Ou tentar se elege o Papa das tavernas apoiado por imbecis? Não, muito obrigado! Trabalhar com afinco para ganhar reputação por meio de um soneto ao invés de muitos? Não, muito obrigado! Elogiar torpes incompetentes? Ser aterrorizado por cada jornal sensacionalista? Repetir incessantemente: ‘Oh, tivesse eu a chance de ser notícia no “Mercúrio”!’ Muito Obrigado, não! Tornar-me pálido, medroso, calculista? Preferir uma visita a um verso? Procurar introduções, escrever petições? Não, muito obrigado! E não! E não novamente! Mas - cantar? Sonhar, rir, viver sem causa, solitário, livre, com olhos que olham sempre em frente - sem medo na voz! Levantar o chapéu como você bem entende - pelo que um ‘sim’ ou ‘não’ pode terminar em briga ou em verso! - Trabalhar, sem um único pensamento no lucro ou na fama, para seguir em jornada à lua! Nunca escrever uma linha que não pareça ter saído do fundo do coração. Abraçando a modéstia, diga a alguém: ‘Meu bom amigo, seja feliz com estas flores - frutas - não, versos, mas colha-os não do jardim, mas do teu coração!’ e então, se a glória vier ao acaso, não pague tributo a César nenhum, mas conserve o mérito consigo. Resumindo, despreze os filhos dos parasitas para ser feliz, como fazem o carvalho e o olmo - não para crescer às alturas, talvez, mas para crescer sozinho!”
Edmond Rostand in Cyrano de Bergerac
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