sábado, 6 de dezembro de 2008

Importância - Agustina Bessa-Luís


A arte é, provavelmente, uma experiência inútil; como a «paixão inútil» em que cristaliza o homem. Mas inútil apenas como tragédia de que a humanidade beneficie; porque a arte é a menos trágica das ocupações, porque isso não envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de música, fazia-se um deserto extraordinário. Acreditem que os teares paravam, também, e as fábricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte é, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e há decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam à experiência inútil que é a arte, pessoas como Virgílio, por exemplo, e que sabem que o seu silêncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e só ficasse no ar o ruído dos motores, porque até o vento se calava no fundo dos vales, penso que até as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vitória, com a mansidão das coisas estéreis. O laço da ficção, que gera a expectativa, é mais forte do que todas as realidades acumuláveis. Se ele se quebra, o equilíbrio entre os seres sofre grave prejuízo.

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'

Seu fruto - Eça


A arte é tudo porque só ela tem a duração - e tudo o resto é nada! As sociedades, os impérios são varridos da terra, com os seus costumes, as suas glórias, as suas riquezas: e se não passam da memória fugitiva dos homens, se ainda para eles se voltam piedosamente as curiosidades, é porque deles ficou algum vestígio de Arte, a coluna tombada dum palácio, ou quatro versos num pergaminho.

Eça de Queirós, in 'Notas Contemporâneas'

(comentário)
Por esse ponto de vista, a arte seria a forma mais direta de se enxergar uma marcação identitária. Encontramo-nos através dela, e encontramos os outros; em qualquer tempo!

A comunicação - Proust


Somente pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que um outro vê desse universo que não é o mesmo que o nosso e cujas paisagens permaneceriam tão desconhecidas para nós quanto as que podem existir na lua. Graças à arte, em vez de ver um único mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e quantos artistas originais existiem tantos mundos teremos à nossa disposição, mais diferentes uns dos outros do que aqueles que rolam no infinito e, muitos séculos após se ter extinguido o foco do qual emanavam, chamasse ele Rembrandt ou Ver Meer, ainda nos enviam o seu raio especial.

Marcel Proust, in 'O Tempo Reencontrado'

Ofício - Cesare Pavese


A arte de desenvolver os pequenos motivos para nos decidirmos a realizar as grandes acções que nos são necessárias. A arte de nunca nos deixarmos desencorajar pelas reacções dos outros, recordando que o valor de um sentimento é juízo nosso, pois seremos nós a senti-lo e não os que assistem. A arte de mentir a nós próprios, sabendo que estamos a mentir. A arte de encarar as pessoas de frente, incluindo nós próprios, como se fossem personagens de uma novela nossa. A arte de recordar sempre que, não tendo nós qualquer importância e não tendo também os outros qualquer espécie de importância, nós temos mais importância que qualquer outro, simplesmente porque somos nós.
A arte de considerar a mulher como um pedaço de pão: problema de astúcia. A arte de mergulhar fulminante e profundamente na dor, para vir novamente à tona graças a um golpe de rins. A arte de nos substituirmos a qualquer um, e de saber, portanto, que cada pessoa se interessa apenas por si própria. A arte de atribuir qualquer dos nossos gestos a outrem, para verificarmos imediatamente se é sensato.
A arte de viver sem a arte.
A arte de estar só.

Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

3 de dezembro de 2008


Hoje existe uma urgência em toda a gente. Toda a gente está chegando ao meio do caminho e desanimando por reflexões avulsas. Param e pensam, e por isso regressam às suas casas, com seus inimigos em seu encalço, saqueando suas terras e tomando suas casas, aos poucos, obrigando-lhes ao serviço militar contra a vontade. Talvez o destino pudesse ter sido diferente; se acreditassem mais poderiam ser presenteados com a pedra mística da vitória, com a experiência deliciosa do sucesso. E por isso existem aqueles que dizem: 'fiz isso e podia ter feito muito mais, só que não sabia.' Eu vos digo: Nunca conseguiremos fugir do obstáculo a não ser que desistamos do caminho! Existe o problema da visão, existe o problema dos míopes como eu, que titubeiam por não verem com clareza muito mais a frente. A questão toda vai ser da convicção, da sua verdade. Hoje trato da convicção através de Antoine de Saint-Exupéry, o autor de 'O pequeno príncipe', que constribui com sua visão daquilo que deve ser inquestionável para a razão. A mudança do ponto de vista para mudar a realidade está em voga nos grandes autores. E, para fincar estacas a respeito do que seja em si a convicção antes de ir além com o problema da visão, cito Ortega y Gasset para dizer que o homem está para dar sentido, e a convicção é isso em pureza; um sentido!
Depois vem Vergílio Ferreira com sua visão existencial sobre o fenômeno em voga aqui, desvendando sua presença no coração dos homens. Tenho talvez um interesse a mais aqui, ao que busco outra citação de Vergílio Ferreira, numa frase, em que se bem pensada possamos chegar ao real acontecer dessa convicção: a originalidade em ardência, que nos liberta do envolvimento para estarmos mais lúcidos diante dos fatos! A convicção então, se mostra como forma única de saber da vida... É necessário ter força apesar de tudo! Boa leitura!

Sávio

A linguagem - Saint-Exupéry

Quando as verdades são evidentes e absolutamente contraditórias, o que tens a fazer é mudar de linguagem. A lógica não serve para te ajudar a passares de um andar para o outro. Tu não prevês o recolhimento a partir das pedras. E, se falares do recolhimento com a linguagem das pedras, vais-te abaixo. Precisas de inventar essa palavra nova para dares conta de uma certa arquitectura das tuas pedras. Porque nasceu um ser novo, não divisível, nem explicável; porque explicar é demonstrar. E tu baptiza-lo então com um nome.
Como é que tu havias de raciocinar sobre o recolhimento? Como é que havias de raciocinar sobre o amor? Como é que havias de raciocinar sobre a propriedade? Não se trata de objectos, mas de deuses.

Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"

As estacas - Ortega y Gasset

A vida é primariamente encontrar-se, cada qual, submergido entre as coisas, e enquanto é apenas isso consiste em sentir-se absolutamente perdido. A vida é perdição. Mas por isso mesmo obriga, quer queiramos quer não, a um esforço para se orientar no caos, para se salvar dessa perdição. Este esforço é o conhecimento que extrai do caos um esquema de ordem, um cosmos. Este esquema do universo é o sistema das nossas ideias ou convicções vigentes. Quer queiramos quer não, vivemos com convicções e de convicções. O mais teoreticamente céptico existe apoiando-se num suporte de crenças sobre o que as coisas são. A vida é absoluta convicção. A dúvida intelectual mais extrema é vitalmente uma absoluta convicção de que tudo é duvidoso. E algo ou tudo ser duvidoso não é uma crença num ser menor do que qualquer outra de aspecto mais positivo.

Ortega y Gasset, in 'O Que é a Vida?'

A presença - Vergílio Ferreira

Esse horizonte-limite identifica-se com o que nos estrutura como destino que nos coube e que não tem explicação; esse horizonte-limite que o é em cada época, é a forma diversificada e actuante do que globalmente nós somos e em cada período se particulariza e hierarquiza para a indizível escolha e hierarquização do que em globo nós somos e em cada época se nos harmoniza na totalidade de nós.

Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo'