sábado, 29 de novembro de 2008

29 de novembro de 2008


Começo hoje, no dia 29 de novembro de 2008, com uma citação de Krishnamurti primeiro pensando sobre o fundamentador do pensamento, e segue com uma de Agostinho da Silva dizendo sobre como sermos mais presentes no mundo, como reconhecer que parte daquilo que vivemos está somente no que trazemos como visão para nós mesmos. Podemos mudar tudo através do manuseio do ponto de vista! E apresento em seguida 'Fernão Capelo Gaivota' de Richard Bach que contém mostras evidentes de uma felicidade que de fato torna as coisas melhores. Boa leitura!

Sávio

Primeiro, fincando estacas. - Krishnamurti


"Quando vocês forem capazes de ver claramente, sem nenhuma distorção, então vocês começarão a indagar a natureza da consciência. Vocês tem que indagar todo o movimento do pensamento, porque o pensamento é o responsável por todo o conteúdo da consciência, tanto das camadas profundas quanto das superfíciais. Se vocês não possuíssem nenhum pensamento, não haveria nenhum medo, nenhum sentido de prazer, nenhum tempo; o pensamento é o responsável pela beleza de uma grande catedral, mas o pensamento também é o responsável por todo o contra-senso que acontece dentro de uma catedral. Todas as realizações dos grandes pintores, poetas, compositores são atividades do pensamento: o compositor, ouvindo interiormente o maravilhoso som, registra-o no papel. Esse é o movimento do pensamento. O pensamento é responsável por todos os deuses do mundo, todos os salvadores, todos os gurus, por toda obediência e devoção; o todo é o resultado do pensamento que procura gratificação e evasão da solidão. O pensamento é o fato comum a toda humanidade. O mais pobre aldeão na Índia pensa como o diretor executivo, como o líder religioso. Este é o terreno sobre o qual estão todos os seres humanos. Não se pode escapar disso."

Krishnamurti in 'A rede do pensamento'

A lucidez como melhoria - Agostinho da Silva


Creio que uma das atitudes fundamentais do homem humano deve ser a de reconhecer em si, numa falta de compreensão ou numa falta de acção, a origem das deficiências que nota no ambiente em que vive; só começamos, na verdade, a melhorar quando deixamos de nos queixar dos outros para nos queixarmos de nós, quando nos resolvemos a fornecer nós mesmos ao mundo o que nos parece faltar-lhe; numa palavra, quando passamos de uma atitude de pessimista censura a uma atitude de criação optimista, optimista não quanto ao estado presente, mas quanto aos resultados futuros. O mesmo terá já dado um grande passo para impedir os ataques, quando aceitar que só puderam existir porque a sua acção não foi o que deveria ter sido; quando se lembrar ainda de que toda a sua coragem se não deve empregar a combater, mas a construir.

Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

A evidência do otimismo - Richard Bach


"Quando Fernão Gaivota se juntou ao bando na praia era já noite cerrada. Estava tonto e tremendamente cansado. Apesar disso, não resistiu ao prazer de voar num 'loop' para terra e de fazer um 'snap roll' antes de aterrar. 'Quando souberem do triunfo', pensava 'ficarão loucos de alegria. Como vale a pena agora viver! Em vez da monótona labuta de procurar peixe junto dos barcos de pesca, temos uma razão para estar vivos! Podemos subtrair-nos à ignorância, podemos encontrar-nos como criaturas excelentes, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!' "

in Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

27 de novembro de 2008


Hoje, ao 27 de novembro de 2008, com Baron de Montesquieu, abro mostrando como o belo esconde-se onde não necessariamente parece-nos belo, porque ele tem sua característica de reserva. A condição de belo está para além das fronteiras dos nossos sentidos, está para além daquilo que alcancamos de forma superficial. Ele ao contrário do que se pensa, não prende, mas liberta, e poderemos ver isso se tivermos paciência de enfrentar Hegel na segunda postagem. Mais a frente pensei em Fernando Pessoa, em sua forma de ser quase platônico dando valor para a beleza na fundamentação de sua coisa, naquilo que está sua proposta, naquilo que está seu empenho, seu labor, seu erigir!
E ao final do dia, mesmo querendo preservar mais para o tema, que provavelmente voltará para nossa atenção, jogo-lhes um trecho de O Retrato de Dorian Gray, onde Wilde mostra-nos como de fato se romanceia Hegel e aquilo que alguns chamam de intuição (sera?).

Sávio

Primeiro, onde? - Montesquieu


Por vezes existe nas pessoas ou nas coisas um charme invisível, uma graça natural que não pôde ser definida, a que somos obrigados a chamar o «não sei o quê». Parece-me que é um efeito que deriva principalmente da surpresa. Sensibiliza-nos o facto de uma pessoa nos agradar mais do que deveria inicialmente e somos agradavelmente surpreendidos porque superou os defeitos que os nossos olhos nos mostravam e que o coração já não acredita. Esta é a razão porque as mulheres feias possuem muitas vezes encantos que raramente as mulheres belas possuem, porque uma bela pessoa geralmente faz o contrário daquilo que esperávamos; começa a parecer-nos menos estimável. Depois de nos ter surpreendido positivamente, surpreende-nos negativamente; mas a boa impressão é antiga e a do mal, recente: assim, as pessoas belas raramente despertam grandes paixões, quase sempre restringidas às que possuem encantos, ou seja, dons que não esperaríamos de modo nenhum e que não tinhamos motivos para esperar.
Os encantos encontram-se muito mais no espírito do que no rosto, porque um belo rosto mostra-se logo e não esconde quase nada, mas o espírito apenas se mostra gradualmente, quando quer e do modo que quer; pode esconder-se para surgir de novo e proporcionar essa espécie de surpresa que constitui os encantos.

Baron de Montesquieu, in "Ensaio Sobre o Gosto"

Á liberdade do que é belo - Hegel


I - Chamamos ao belo ideia do belo. Este deve ser concebido como ideia e, ao mesmo tempo, como a ideia sob forma particular; quer dizer, como ideal. O belo, já o dissemos, é a ideia; não a ideia abstracta, anterior à sua manifestação, não realizada, mas a ideia concreta ou realizada, inseparável da forma, como esta o é do principio que nela aparece. Ainda menos devemos ver na ideia uma pura generalidade ou uma colecção de qualidades abstraídas dos objectos reais. A ideia é o fundo, a própria essência de toda a existência, o tipo, unidade real e viva da qual os objectos visíveis não são mais que a realização exterior. Assim, a verdadeira ideia, a ideia concreta, é a que resume a totalidade dos elementos desenvolvidos e manifestados pelo conjunto dos seres. Numa palavra, a ideia é um todo, a harmoniosa unidade deste conjunto universal que se processa eternamente na natureza e no mundo moral ou do espírito.
Só deste modo a ideia é verdade, e verdade total.
Tudo quanto existe, portanto, só é verdadeiro na medida em que é a ideia em estado de existência; pois a ideia é a verdadeira e absoluta realidade. Nada do que aparece como real aos sentidos e à consciência é verdadeiro por ser real, mas por corresponder à ideia, realizar a ideia. De outro modo, o real é uma pura aparência.

II - Agora, se dizemos que a beleza é a ideia, é porque beleza e verdade, num certo aspecto, são idênticas. Há, contudo, uma diferença entre o verdadeiro e o belo.
O verdadeiro é a ideia considerada em si mesma, no seu principio geral e em si e pensada como tal. Não existe, pois, para a razão sob a sua forma exterior e sensível, mas no seu carácter geral e universal. Quando o verdadeiro aparece imediatamente ao espírito na realidade exterior e a ideia se confunde e se identifica com a sua aparência exterior, então a ideia não é somente verdadeira, mas também bela.
Define-se, pois, o belo: a manifestação sensível da ideia (Dassinnlich Scheinen der Idee).
No belo, a forma sensível nada é sem a ideia. Os dois elementos do belo são inseparáveis. Aqui está porque, do ponto de vista da razão lógica ou da abstracção, o belo não pode compreender-se. A razão lógica (Verstand) nunca apreende mais que um dos lados do belo: fica no finito, no exclusivo e falso. O belo, pelo contrário, é em si mesmo infinito e livre.

III - O carácter infinito e livre reconhecia-se quer no sujeito, quer no objecto, e neste do duplo ponto de vista teórico e prático.
1º O objecto, no seu aspecto teórico (especulativo), é livre, visto que não está equilibrado como uma simples existência particular e individual, que, como tal, tem a sua ideia subjectiva (sua íntima essência e a própria razão de ser) fora de si mesma, desenvolve-se sem regra e sem lei, dispersa-se e perde-se na multiplicidade das relações exteriores. Porém, o objecto belo deixa ver a sua própria ideia realizada na sua existência mesma e nessa unidade interior que constitui a sua vida. Por ela, o objecto (...) libertou-se de toda a dependência do que não seja ele mesmo. Perdeu o seu carácter finito e limitado para se transformar em infinito e livre.
Por outro lado, o sujeito, o eu, em sua relação com o objecto, cessa igualmente de ser uma simples abstracção, um sujeito que percepciona e observa fenómenos sensíveis e os generaliza. Chega a ser concreto neste objecto, porque toma nele consciência da unidade da ideia e da sua realidade, da reunião concreta dos elementos que anteriormente estavam separados no eu e no seu objecto.
2º Sob o aspecto prático, como foi demonstrado anteriormente, não existe o desejo na contemplação do belo. O sujeito retira os próprios fins perante o objecto, que considera como existindo por si mesmo, como tendo fim próprio e independente. Por isso, o objecto é livre, visto que não é um meio, mas um instrumento afecto a outra existência. Por seu turno, o sujeito (o espectador) sente-se inteiramente livre porque a distinção entre os seus fins e os meios para satisfazê-los desaparece nele, porque, para ele, a necessidade e o dever de preencher estes fins, realizando-os e objectivando-os, não o retêm na esfera do finito, e, pelo contrário, tem ante si a ideia e o fim realizado de modo perfeito.
Eis aqui porque a contemplação do belo revela algo de liberal; permite ao objecto manter-se na sua existência livre e independente. O sujeito que contempla não sente qualquer necessidade de possui-lo ou de utilizá-lo.
Ainda que livre e fora de todo o alcance exterior, o objecto belo contém todavia, e deve conter em si, a necessidade como relação necessária que mantém a harmonia entre os seus elementos; não aparece, porém, sob a forma da necessidade, porquanto deve dissimular-se sob a aparência de uma disposição acidental onde não penetra qualquer intenção. De outro modo, as diferentes partes perderão a propriedade de serem por si mesmas e para si mesmas. Estão ao serviço da unidade ideal, que as mantém sob a sua dependência.
Em virtude deste carácter livre e infinito que reveste a ideia do belo, como o objecto belo e a contemplação dele, o domínio do belo escapa à esfera das relações fintas e eleva-se à região da ideia e da sua verdade.

Georg Hegel, in ' Do Belo e Suas Formas '

A empenho do que é belo - Fernando Pessoa


A beleza começou por ser uma explicação que a sexualidade deu a si-própria de preferências provavelmentente de origem magnética. Tudo é um jogo de forças, e na obra de arte não temos que procurar «beleza» ou coisa que possa andar no gozo desse nome. Em toda a obra humana, ou não humana, procuramos só duas coisas, força e equilíbrio de força - energia e harmonia.
Perante qualquer obra de qualquer arte - desde a de guardar porcos à de construir sinfonias - pergunto só: quanta força? quanta mais força? quanta violência de tendência? quanta violência reflexa de tendência, violência de tendência sobre si própria, força da força em não se desviar da sua direcção, que é um elemento da sua força?

Fernando Pessoa, in 'Correspondência'