domingo, 15 de agosto de 2010

Das metáforas - Robert Musil


Pensemos, por exemplo, nos grandes escritores. Podemos orientar a nossa vida por eles, mas não podemos extrair das suas obras o elixir da vida. Eles deram uma forma tão rígida àquilo que os moveu que tudo isso está ali, mesmo nas entrelinhas, como metal laminado. Mas, que disseram eles na verdade? Ninguém sabe. Eles próprios nunca o souberam explicar cabalmente. São como um campo sobre o qual voam as abelhas; e ao mesmo tempo, eles são esse próprio voo. Os seus pensamentos e sentimentos assumem toda a escala da transição entre verdades ou erros que, se necessário, podem ser demonstrados, e seres mutáveis que se aproximam ou afastam de nós quando os queremos observar.
É impossível destacar o pensamento de um livro da página que o encerra. Acena-nos como o rosto de alguém que passa rapidamente por nós, numa fila com outros rostos, e por um instante surge carregado de sentido. Estou outra vez a exagerar um pouco. Mas agora queria perguntar-lhe: que coisa acontece na nossa vida que não seja aquilo que acabo de descrever? Não falo das impressões mais exactas, mensuráveis e definíveis; todos os outros conceitos em que baseamos a nossa vida não passam de metáforas que ficaram cristalizadas. Entre quantas ideias não oscila e paira um conceito tão simples como o da virilidade? E como um sopro que muda de forma a cada respiração, e nada é estável, nenhuma impressão, nenhuma ordem. Se, como eu disse, pomos de lado na literatura aquilo que não nos convém, tudo o que fazemos é reconstituir o estado original da vida.

Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

12 de agosto de 2010 - Do Poder


Diria que é perigoso o poder; mas se me perguntassem mais eu diria que não o poder, mas as pessoas. No fim é um questionamento lamentoso de poder, amargura do mal que surge com necessidades invisíveis, como as vírgulas para o fôlego, ou como os motivos para as vírgulas, ou ainda como as respostas pra isso, que surgem como abelhas numa colméia.

Essas circunstâncias que deixam a impressão do perigo no poder (nós as percebemos), porque algo em nós grita que nós também compartilhamos do potencial da tirania. Nesse momento, eu apontaria, tentando apontar a paz, para o silêncio.

da separação - Nietzsche

O crescimento da comunidade frutifica no indivíduo um interesse novo que o aparta da sua pena pessoal, da sua aversão à sua própria pessoa. Todos os doentes aspiram instintivamente a organizar-se em rebanhos, o sacerdote ascético adivinha este instinto e alenta-os onde quer que haja rebanhos, o instinto de fraqueza forma-os, a habilidade do sacerdote organiza-os. Não nos enganemos: os fortes aspiram a separar-se e os fracos a unir-se; se os primeiros se reúnem, é para uma acção agressiva comum, que repugna muito à consciência de cada qual; pelo contrário, os últimos unem-se pelo prazer que acham em unir-se; porque isto satisfaz o seu instinto, assim como irrita o instinto dos fortes. Toda a oligarquia envolve o desejo da tirania; treme continuamente por causa do esforço que cada um dos indivíduos tem que fazer para dominar este desejo.

Friedrich Nietzsche, in 'Genealogia da Moral'

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Chove

Uma postagem do blog Entusiasmo que faz muito sentido que esteja nesse, mas que atende muito bem a outra demanda também...

"Chove. Que fiz eu da vida? Fiz o que ela fez de mim... De pensada, mal vivida... Triste de quem é assim!"Fernando Pessoa

Eu diria que esse trecho me alivia... e não há explicação que chegue à isso, apenas isso em si é que dá conta de si. Em divagar dessa busca de si tão mais óbvia em si, eu diria que haver coisas que se bastem também a explicações, é apenas meu desinteresse pro elas. Se tentasse explicar o alívio, apontaria pra frase final onde diz da tristeza dessa forma de ser, onde ele finalmente percebe que a experiência vivida respondia ao seu eu, e não era sempre a mesma. Fantástico foi a fantasia com o óbvio, e não só isso.

terça-feira, 6 de abril de 2010

6 de abril de 2010 - Da coragem


O dia surge com preguiça, e lentamente o sol ocupa o horizonte. A consciência se apressa em tomar espaço e sou ativo novamente. Com cada atitude preenchida de motivos vivos administro meus sonhos com passos imprevisíveis e convictos.

Se invisto energia num avanço rápido abro mão de defesas que podem ser necessárias, garantias... Sou levado ao preparo sempre insuficiente, e por ele chego à ordem de construir uma armadura que contra tudo seja suficiente.

Mas a vida é despreparo, eu escrevo e volto atrás, apagando, e ainda serão rascunhos publicados. Escrevemos rascunhos pra vida, e acessamos eles interminavelmente, reeditando, porque sempre há margem à melhoria. O jardim separado seca, e para saber-se fechado não basta ter as portas fechadas. Estar aberto talvez esteja mais próximo de ser simples e desperto que luxuoso e farto.

Jardim Secreto - Arthur Schintzler


Se protegerdes com demasiada devoção o jardim secreto da tua alma, ele pode facilmente começar a florescer de um modo excessivamente luxuriante, transbordar para além do espaço que lhe estava reservado e tomar mesmo pouco a pouco posse da tua alma de domínios que não estavam destinados a permanecer secretos. E é possível que toda a tua alma acabe por se tornar um jardim bem fechado, e que no meio de todas as suas flores e dos seus perfumes ela sucumba à sua solidão.

Arthur Schnitzler, in 'Relações e Solidão'

segunda-feira, 15 de março de 2010

15 de março de 2010 - da poesia (talvez mais crítica)


Existe quem seja contra a argumentação dos que estudam. Quem escreve mal e é inseguro tem medo dos críticos, não importa a área, porque não saberão se defender. Tem algumas pessoas que acham que o conhecimento é delas, e tem aquelas que admitem o conhecimento num texto de outro, e vai estudá-lo, admirado. A esse segundo caso chamo de 'críticos', ao primeiro 'críticos de araque'. O crítico de araque não sabe, mas ele também critica a posição de crítico, apesar de ser um, e sua ignorância se ambienta exatamente no fato de ignorarem sua própria posição; não são os únicos, mas eles, que lêem a crítica dos outros, e não gostam de assumir que um texto possa falar mal de algo que talvez ele goste (como o deles mesmo faz com outros), sai por aí dizendo bobagens a respeito de uma profissão (generalização: erro que eu mesmo cometo várias vezes e por isso mesmo me sinto a vontade de apontá-lo como erro, e se eu cometer novamente aqui mesmo por favor me apontem!) que enfrenta problemas gigantescos em seu próprio seio no Brasil pela descrença na cultura que é senso comum já, e que este exemplar de gente ajudam a piorar. Pessoas como Roland Barthes que estudam e que dizem coisas maravilhosas em seus estudos, como está na citação seguinte, são afastados das pessoas porque existem esses que não sabem calar-se para o fenômeno, falam para os próprios ouvidos talvez, porque estão desacostumados ao aprendizado vir de fora pra dentro, acham que sabem o suficiente, desobedecendo mais uma vez o velho ditado: 'não se pode acrescentar a um copo que já está cheio'.

Pessoas como Márcio Ezequiel (o twitter dele: http://twitter.com/marcioezequiel , o blog dele onde ele falou besteira: http://marcioezequiel.blogspot.com/) são exemplares dos anti-cultura que infestam o país, e pra completar, quando postei um comentário em seu blog onde acusei-o de blasfêmia descobri que os comentários postos lá tem de passar por sua aprovação e ele se sentiu no direito de negar o comentário que se opôs a ele, um ato de censura claro onde ele quer controlar a opinião das pessoas que frequentarem seu ambiente, não permitindo que vejam opiniões avessas às dele. Assim são os políticos que negam educação ao povo, estão outros que ameaçam mídias caso publiquem notícias que prejudiquem suas imagens, e assim vai... Esse exemplar da escória (essa é a opinião que sustento enquanto ele não responder, e talvez dure pra sempre...) me intrigou, porque eu precisava mesmo de ver um exemplo de burrice pra poder apontar o dedo e dizer que ele é um dos responsáveis pelo atraso do país!

Mudando radicalmente agora, voltando ao assunto que interessa ao blog, a arte literária é do povo, e merece sua atenção, os críticos somos nós todos, e quem escreve, só por escrever, está ousando interferir na história da escrita; se supera, difama, se falha, anuncia outros... Quem é separado neste mundo?(talvez o Márcio Ezequiel) Estamos interligados até porque um prato de comida que se come é um prato de comida a menos para todos! É por isso que o desperdício fere. É um ato de respeito para a condição humana fazer considerações abertas sobre a posição de outras pessoas ou sobre suas obras, quem nega isso nega também melhoras para a humanidade uma vez que acha que nada se acrescenta, e que todos devem viver separados em seus próprios mundos (talvez um resultado do consumismo que insere as pessoas cada vez mais em perspectivas alucinadas de isolamento e ignorância; pra defender essa minha posição aponto um bom filme que trata o caso: SURPLUS). Nós compartilhamos as experiências, e é por isso, e por nada mais, que tudo que é arte tem importância, e é tão fantástico isso que na seguinte citação está uma análise do que compõe a poesia.

Da palavra poética - Roland Barthes


"Cada palavra poética é assim um objeto inesperado, uma caixa de Pandora de onde saem voando todas as virtualidades da linguagem; é portanto produzida e consumida com uma curiosidade particular, uma espécie de gulodisse sagrada. Essa Fome da Palavra, comum a toda a poesia moderna, faz da palavra poética uma palavra terrível e desumana. Institui um discurso cheio de buracos e cheio de luzes, cheio de ausências e de signos supernutritivos sem previsão nem permanência de intenção e por isso mesmo tão oposto à função social da linguagem, que o simples recurso a uma palavra descontínua abre a via de todas as sobrenaturezas."

Roland Barthes in 'O grau zero da escrita' (p.43-44, 2004)