domingo, 11 de janeiro de 2009

Vislumbre da finitude - Ludwig Wittgenstein


A morte não é um acontecimento da vida. A morte não pode ser vivida. Caso se compreenda por eternidade não uma duração temporal infinita, mas a intemporalidade, quem vive no presente é quem vive eternamente. A nossa vida é tanto mais sem fim quanto mais o nosso campo de visão não tem limites.

Ludwig Wittgenstein, in 'Tratado Lógico-Filosófico'

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A finitude e a liberdade - Françoise Dastur

"trate-se então, para o homem, de ser um morto-vivo, e é mesmo essa capacidade de morte que é a base de sua liberdade, enquanto que esta consiste na possibilidade de negar a determinação natural. É isto que explica que a liberdade esteja essencialmente ligada ao Terror, pois "a única obra e realização da liberdade universal é a morte". Se a ordem humana não advém senão pela negação da liberdade, podemos então afirmar, como Kojève, que "o homem não é simplesmente mortal; é a encarnação da morte; é sua própria morte"; o que implica que o ser do homem "se manifesta como um suicídio postergado".

Françoise Dastur in 'A Morte'

domingo, 14 de dezembro de 2008

14 de dezembro de 2008


A realidade será desvendada, e para isso teremos de nos abrir da forma mais sensível que há. Não é uma obrigação, e somente assim, sem obrigação é que será possível que esse animal arisco, que é a realidade, se mostre... O que eu pretendo com esses trextos é estar mais próximo do que for percebido a respeito desse tema da forma que parecer mais verdadeira, talvez algum dia torne necessário o questionamento dessa posição que tomo como o que julga a proximidade da verdade, mas agora isso é uma proposta a ser explorada, e ainda não questionada, teremos de partir de algum ponto.
A busca da realidade parece passar inicialmente pelo estágio da percepção, isso parece bem óbvio, porque é essa noção do que temos em mãos que usamos como alicerces aos nossos gigantescos movimentos. É estarmos pisando em determinados terrenos que nos colocam em evidência ou na mediocridade. Essa diferenciação manifesta algo que anda com o nosso acontecer, essa mudança mostra que existe de fato um diálogo entre nossos atos e todos os outros, entre nossos atos e tudo o que há, mesmo porque se não evidenciasse qualquer diálogo seríamos tomados até por nós mesmos por loucos, e é pensando assim que na adolescêcia se pensa com tanta ansiedade...
Começo por Vergílio Ferreira dizendo-nos sobre o real como desmistificador, e sigo com Krishnamurti que nos mostra claramente o quão poderosa é nossa mente em relação à realidade, depois lanço Fernando Pessoa com sua sobreposição de paisagens, onde vemos as intermitências da interpretação do mundo. Tem Thomas Carlyle falando sobre o confronto entre erros relativos às realidades adiante. Não chega-se ao fim novamente, sempre há mais o que se dizer... seria muita pretenção dizer algo definitivo...

Sávio

O desmistificador - Vergílio Ferreira


Viajar não é realizar o imaginário que nos excita antes da viagem mas sim exterminá-lo. O deslumbramento é do que se imagina e não do que realizou esse imaginar. Nós pensamos numa terra longínqua e confusamente admitimos que essa distância é sensível quando lá estivermos. Ora quando lá estivermos há o real que desmistifica o imaginário, há o lá, como aqui, num sítio limitado por um horizonte totalmente presente e não tocado da ausência que havia na imaginação. Mesmo os seus elementos característicos que tiver, uma vez realizados, perdem a magia na sua realização. Eis porque precisamos às vezes de rever num mapa a sua localização para de algum modo lhe restaurarmos a distãncia. Tudo se solidifica na concretização do real, tudo se desvanece aí da sua figuração. A grande força do real é a do que está para lá dele, porque toda a realidade é redutora.

Vergílio Ferreira, in 'Pensar'

O pensamento diante de tudo - Ksrishnamurti


O pensamento criou os problemas que nos cercam, e os nossos cérebros são treinados, educados, condicionados para a solução dos problemas. O pensamento criou os problemas, como a divisão entre nacionalidades. O pensamento criou a divisão e o conflito entre as várias estruturas econômicas; o pensamento criou as várias religiões e as divisões entre elas e, por conseguinte, há conflito. O cérebro é treinado para tentar solucionar esses conflitos que o pensamento criou. É essencial que entendamos profundamente a natureza do nosso pensar, a natureza das reações que surgem do nosso pensar. O pensamento domina as nossas vidas, não importa o que façamos; seja qual for a ação que se realize, o pensamento está por trás dessa ação. Em toda atividade, seja ela sensual, intelectual ou biológica, o pensamento opera o tempo todo. Biologicamente, durante séculos, o cérebro foi programado, condicionado - o corpo age do seu próprio modo, a ação de respirar, o batimento do coração, e assim por diante - e, assim, se você é católico, hindu ou budista, você repete esse condicionamento reiteradamente.
O pensamento é um movimento no tempo e no espaço. O pensamento é memória. lembranças das coisas passadas. O pensamento é a atividade do conhecimento, conhecimento que foi acumulado durante milhões de anos e armazenado como memória no cérebro. Se vocês observarem a atividade do nosso pensar, verão que a experiência e o conhecimento constituem a base da nossa vida. O conhecimento nunca está completo: ele caminha sempre com a ignorância. Achamos que o conhecimento solucionará todos os nossos problemas, seja o conhecimento do sacerdote, do guru, do cientista, do filósofo ou do mais recente psiquiatra da moda. Mas nunca questionamos se o conhecimento em si mesmo pode solucionar quaisquer dos nossos problemas - esceto, talvez, os problemas tecnológicos.

Krishnamurti in 'A rede do Pensamento'

As duas paisagens - Fernando Pessoa


1 - Em todo o momento de actividade mental acontece em nós um duplo fenómeno de percepção: ao mesmo tempo que tempos consciência de um estado de alma, temos diante de nós, impressionando-nos os sentidos que estão virados para o exterior, uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para conveniência de frases, tudo o que forma o mundo exterior num determinado momento da nossa percepção.
2 - Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes.
3 - Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo - num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva - e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma - é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que «na ausência da amada o sol não brilha», e outras coisas assim. De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que terá de tentar dar uma intersecção de duas paisagens. Têm de ser duas paisagens, mas pode ser - não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem - que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

As implicações - Thomas Carlyle

Todo o confronto é fruto de um mal-entendido; se as partes em disputa se conhecessem uma à outra, o confronto cessaria. Nenhum homem, no fundo, tenciona cometer injustiças; é sempre por uma imagem distorcida e obscura de algo moralmente correcto que ele batalha: uma imagem obscura, difractada, exagerada da forma mais assombrosa pela natural obtusão e egoísmo, uma imagem que se distorce dez vezes mais pelo acirramento da contenda, até tornar-se virtualmente irreconhecível, mas ainda assim a imagem de algo moralmente correcto. Se um homem pudesse admitir perante si próprio que aquilo pelo que luta é errado e contrário à equidade e à lei da razão, admitiria também, por conta disso, que a sua causa ficou condenada e desprovida de esperança; ele não conseguiria continuar a lutar por ela.

Thomas Carlyle, in 'Selected Writings'

sábado, 6 de dezembro de 2008

6 de dezembro de 2008


Como primeira apresentação do tema de hoje, a arte, trago essa frase:
"The only real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but having new eyes."(Marcel Proust)

Diria que uma boa proposta seja ver a arte como um diálogo entre o íntimo e a realidade, e pra isso cito Kant. Jean Lacoste diz em seu livro 'A filosofia da arte' que "Kant foi o primeiro que tentou superar a oposição entre a generalidade abstrata e o particular, entre o pensamento e a realidade." Quando Kant trata de generalidade abstrata e particular, ele trata de particular como algo na evidência do seu acontecimento, enquanto se faz, nada distante do que é a sua realidade própria. Cuidadosamente ele coloca o particular como a instância separada que nada tem a ver com seus itens a nao ser onde eles se estruturam esteticamente, a estética é o laço que pode ligar as duas coisas. A instância visada é aquela suspensa sobre o acontecer e que vai guiando como um contexto íntimo, solitário, como uma ordem identitária única... O pensamento já não pode de modo algum ser realidade propriamente dita. Seu encontro se dará por um intermediador: a arte, onde conversam os itens íntimos e os itens resgatados...

Quero começar com Agustina Bessa-Luís, que fala de uma forma poética da importância da arte, e verás como é mais convincente quando a coisa é artística, porque por certo já ouvires diversas vezes essas idéias, mas não expressas de forma tão bela. Continuo com Eça para tornar presente na consciência aquilo que a arte tem como fruto. Proust em seguida. A explicação que ele traz é ingenuamente brilhante! Parece-nos comum ao primeiro passo, depois é especial porque não se limita como as teorias, mas abre a experiência para tudo mais. Parece então que a arte é o diálogo dito mais acima, entre o particular e o (quem sabe) universal? A arte é fechada hoje com uma elocubração sobre o ofício de viver de Cesare Pavese.

O objetivo aqui foi demonstrar em passos curtos a experiência da arte através de diferentes olhares. Por isso peguei textos de diferentes artistas e dei a eles uma ordem! Ordem fundamentada na intenção do diálogo humano com o abstrato. Ainda há o que ser dito... Boa leitura.

Sávio