terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A finitude e a liberdade - Françoise Dastur

"trate-se então, para o homem, de ser um morto-vivo, e é mesmo essa capacidade de morte que é a base de sua liberdade, enquanto que esta consiste na possibilidade de negar a determinação natural. É isto que explica que a liberdade esteja essencialmente ligada ao Terror, pois "a única obra e realização da liberdade universal é a morte". Se a ordem humana não advém senão pela negação da liberdade, podemos então afirmar, como Kojève, que "o homem não é simplesmente mortal; é a encarnação da morte; é sua própria morte"; o que implica que o ser do homem "se manifesta como um suicídio postergado".

Françoise Dastur in 'A Morte'

domingo, 14 de dezembro de 2008

14 de dezembro de 2008


A realidade será desvendada, e para isso teremos de nos abrir da forma mais sensível que há. Não é uma obrigação, e somente assim, sem obrigação é que será possível que esse animal arisco, que é a realidade, se mostre... O que eu pretendo com esses trextos é estar mais próximo do que for percebido a respeito desse tema da forma que parecer mais verdadeira, talvez algum dia torne necessário o questionamento dessa posição que tomo como o que julga a proximidade da verdade, mas agora isso é uma proposta a ser explorada, e ainda não questionada, teremos de partir de algum ponto.
A busca da realidade parece passar inicialmente pelo estágio da percepção, isso parece bem óbvio, porque é essa noção do que temos em mãos que usamos como alicerces aos nossos gigantescos movimentos. É estarmos pisando em determinados terrenos que nos colocam em evidência ou na mediocridade. Essa diferenciação manifesta algo que anda com o nosso acontecer, essa mudança mostra que existe de fato um diálogo entre nossos atos e todos os outros, entre nossos atos e tudo o que há, mesmo porque se não evidenciasse qualquer diálogo seríamos tomados até por nós mesmos por loucos, e é pensando assim que na adolescêcia se pensa com tanta ansiedade...
Começo por Vergílio Ferreira dizendo-nos sobre o real como desmistificador, e sigo com Krishnamurti que nos mostra claramente o quão poderosa é nossa mente em relação à realidade, depois lanço Fernando Pessoa com sua sobreposição de paisagens, onde vemos as intermitências da interpretação do mundo. Tem Thomas Carlyle falando sobre o confronto entre erros relativos às realidades adiante. Não chega-se ao fim novamente, sempre há mais o que se dizer... seria muita pretenção dizer algo definitivo...

Sávio

O desmistificador - Vergílio Ferreira


Viajar não é realizar o imaginário que nos excita antes da viagem mas sim exterminá-lo. O deslumbramento é do que se imagina e não do que realizou esse imaginar. Nós pensamos numa terra longínqua e confusamente admitimos que essa distância é sensível quando lá estivermos. Ora quando lá estivermos há o real que desmistifica o imaginário, há o lá, como aqui, num sítio limitado por um horizonte totalmente presente e não tocado da ausência que havia na imaginação. Mesmo os seus elementos característicos que tiver, uma vez realizados, perdem a magia na sua realização. Eis porque precisamos às vezes de rever num mapa a sua localização para de algum modo lhe restaurarmos a distãncia. Tudo se solidifica na concretização do real, tudo se desvanece aí da sua figuração. A grande força do real é a do que está para lá dele, porque toda a realidade é redutora.

Vergílio Ferreira, in 'Pensar'

O pensamento diante de tudo - Ksrishnamurti


O pensamento criou os problemas que nos cercam, e os nossos cérebros são treinados, educados, condicionados para a solução dos problemas. O pensamento criou os problemas, como a divisão entre nacionalidades. O pensamento criou a divisão e o conflito entre as várias estruturas econômicas; o pensamento criou as várias religiões e as divisões entre elas e, por conseguinte, há conflito. O cérebro é treinado para tentar solucionar esses conflitos que o pensamento criou. É essencial que entendamos profundamente a natureza do nosso pensar, a natureza das reações que surgem do nosso pensar. O pensamento domina as nossas vidas, não importa o que façamos; seja qual for a ação que se realize, o pensamento está por trás dessa ação. Em toda atividade, seja ela sensual, intelectual ou biológica, o pensamento opera o tempo todo. Biologicamente, durante séculos, o cérebro foi programado, condicionado - o corpo age do seu próprio modo, a ação de respirar, o batimento do coração, e assim por diante - e, assim, se você é católico, hindu ou budista, você repete esse condicionamento reiteradamente.
O pensamento é um movimento no tempo e no espaço. O pensamento é memória. lembranças das coisas passadas. O pensamento é a atividade do conhecimento, conhecimento que foi acumulado durante milhões de anos e armazenado como memória no cérebro. Se vocês observarem a atividade do nosso pensar, verão que a experiência e o conhecimento constituem a base da nossa vida. O conhecimento nunca está completo: ele caminha sempre com a ignorância. Achamos que o conhecimento solucionará todos os nossos problemas, seja o conhecimento do sacerdote, do guru, do cientista, do filósofo ou do mais recente psiquiatra da moda. Mas nunca questionamos se o conhecimento em si mesmo pode solucionar quaisquer dos nossos problemas - esceto, talvez, os problemas tecnológicos.

Krishnamurti in 'A rede do Pensamento'

As duas paisagens - Fernando Pessoa


1 - Em todo o momento de actividade mental acontece em nós um duplo fenómeno de percepção: ao mesmo tempo que tempos consciência de um estado de alma, temos diante de nós, impressionando-nos os sentidos que estão virados para o exterior, uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para conveniência de frases, tudo o que forma o mundo exterior num determinado momento da nossa percepção.
2 - Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes.
3 - Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo - num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva - e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma - é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que «na ausência da amada o sol não brilha», e outras coisas assim. De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que terá de tentar dar uma intersecção de duas paisagens. Têm de ser duas paisagens, mas pode ser - não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem - que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

As implicações - Thomas Carlyle

Todo o confronto é fruto de um mal-entendido; se as partes em disputa se conhecessem uma à outra, o confronto cessaria. Nenhum homem, no fundo, tenciona cometer injustiças; é sempre por uma imagem distorcida e obscura de algo moralmente correcto que ele batalha: uma imagem obscura, difractada, exagerada da forma mais assombrosa pela natural obtusão e egoísmo, uma imagem que se distorce dez vezes mais pelo acirramento da contenda, até tornar-se virtualmente irreconhecível, mas ainda assim a imagem de algo moralmente correcto. Se um homem pudesse admitir perante si próprio que aquilo pelo que luta é errado e contrário à equidade e à lei da razão, admitiria também, por conta disso, que a sua causa ficou condenada e desprovida de esperança; ele não conseguiria continuar a lutar por ela.

Thomas Carlyle, in 'Selected Writings'

sábado, 6 de dezembro de 2008

6 de dezembro de 2008


Como primeira apresentação do tema de hoje, a arte, trago essa frase:
"The only real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but having new eyes."(Marcel Proust)

Diria que uma boa proposta seja ver a arte como um diálogo entre o íntimo e a realidade, e pra isso cito Kant. Jean Lacoste diz em seu livro 'A filosofia da arte' que "Kant foi o primeiro que tentou superar a oposição entre a generalidade abstrata e o particular, entre o pensamento e a realidade." Quando Kant trata de generalidade abstrata e particular, ele trata de particular como algo na evidência do seu acontecimento, enquanto se faz, nada distante do que é a sua realidade própria. Cuidadosamente ele coloca o particular como a instância separada que nada tem a ver com seus itens a nao ser onde eles se estruturam esteticamente, a estética é o laço que pode ligar as duas coisas. A instância visada é aquela suspensa sobre o acontecer e que vai guiando como um contexto íntimo, solitário, como uma ordem identitária única... O pensamento já não pode de modo algum ser realidade propriamente dita. Seu encontro se dará por um intermediador: a arte, onde conversam os itens íntimos e os itens resgatados...

Quero começar com Agustina Bessa-Luís, que fala de uma forma poética da importância da arte, e verás como é mais convincente quando a coisa é artística, porque por certo já ouvires diversas vezes essas idéias, mas não expressas de forma tão bela. Continuo com Eça para tornar presente na consciência aquilo que a arte tem como fruto. Proust em seguida. A explicação que ele traz é ingenuamente brilhante! Parece-nos comum ao primeiro passo, depois é especial porque não se limita como as teorias, mas abre a experiência para tudo mais. Parece então que a arte é o diálogo dito mais acima, entre o particular e o (quem sabe) universal? A arte é fechada hoje com uma elocubração sobre o ofício de viver de Cesare Pavese.

O objetivo aqui foi demonstrar em passos curtos a experiência da arte através de diferentes olhares. Por isso peguei textos de diferentes artistas e dei a eles uma ordem! Ordem fundamentada na intenção do diálogo humano com o abstrato. Ainda há o que ser dito... Boa leitura.

Sávio

Importância - Agustina Bessa-Luís


A arte é, provavelmente, uma experiência inútil; como a «paixão inútil» em que cristaliza o homem. Mas inútil apenas como tragédia de que a humanidade beneficie; porque a arte é a menos trágica das ocupações, porque isso não envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de música, fazia-se um deserto extraordinário. Acreditem que os teares paravam, também, e as fábricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte é, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e há decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam à experiência inútil que é a arte, pessoas como Virgílio, por exemplo, e que sabem que o seu silêncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e só ficasse no ar o ruído dos motores, porque até o vento se calava no fundo dos vales, penso que até as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vitória, com a mansidão das coisas estéreis. O laço da ficção, que gera a expectativa, é mais forte do que todas as realidades acumuláveis. Se ele se quebra, o equilíbrio entre os seres sofre grave prejuízo.

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'